Prólogo: Lamento VS Pânico – Aliens VS Fazenda Rio Grande

Era uma dia comum. Pessoas pegavam seus ônibus para o trabalho, cachorros latiam com a passagem do carteiro, chaminés das fábricas da zona industrial espalhavam fumaça tóxica no ar, traficantes vendiam drogas na porta das escolas, congestionamentos de quilômetros assolavam as saídas de Curitiba… e uma nave espacial pairava sobre a entrada do município de Fazenda Rio Grande. 

Apesar de o ser humano sempre ter cogitado a possibilidade de vida extraterrestre, acho que ninguém estava realmente preparado para o primeiro contato alienígena na Terra — exceto por um andarilho que conheci na infância, que já predissera a invasão anos atrás. 

De fato, tudo aconteceu de repente. As agências espaciais não detectaram a chegada dos ETs e, quando menos esperávamos, os seres intergalácticos se aproximaram da atmosfera terrestre. Os governos entraram em estado de emergência, e a mídia televisionava o evento por todo o globo. O pânico tomou conta da população, refletindo-se nas redes sociais: postagens sobre teorias da conspiração, “testamentos” digitais e mensagens de adeus inundavam a internet. 

Milhares de naves se aproximavam da Terra, e os governos se preparavam para o pior. Exércitos do mundo todo estavam em alerta máximo, enquanto cúpulas de segurança ao redor do globo se perguntavam qual seria o destino de nosso planeta. 

Inesperadamente, a frota galáctica cessou a aproximação, estacionando as naves na atmosfera terrestre. Lembro-me claramente da vista aérea: os céus foram tomados por aqueles imensos objetos voadores. 

Após algum tempo, uma nave menor pousou em nosso solo. Ironicamente, como nos filmes de Hollywood, o local escolhido foi os Estados Unidos. Minha sensação, porém, era que nem mesmo a nação mais poderosa da história da humanidade seria capaz de reagir ao poderio daquela enorme frota nos céus. 

Uma pequena criatura verde, com vários olhos amarelos espalhados pela cabeça e corpo enrugado — lembrando um pouco a textura do Jabba de Star Wars — saiu do que parecia ser a escotilha da nave. O planeta observava em alerta máximo. Em uma tentativa desesperada de diálogo, o presidente dos Estados Unidos abriu uma coletiva de imprensa para estabelecer contato. Contudo, não obteve sucesso.

Eu assistia pela internet à transmissão ao vivo do evento, que atingia cerca de meio bilhão de visualizações no YouTube. Havia tanques de guerra, aeronaves sobrevoando o local e centenas de soldados de elite esperando a ordem de ataque. 

O alien ficou parado por um momento analisando a situação, quando um general questionou rispidamente: 

— Você entende a minha língua?! – O extraterrestre continuou imóvel. — O que vocês querem aqui?! – Nada aconteceu. — Se não responder, teremos que abrir fogo! — Bradou o comandante. 

De repente, os vários olhos do alien começaram a brilhar, e ele começou a falar em uma língua estranha. Então, instantaneamente, a criatura desapareceu do lugar! Todos ficaram assustados, afinal, jamais houve uma demonstração de tal poder em toda a história da humanidade. A sala de controle da CIA, que acompanhava a situação de perto, acionou imediatamente as agências de espionagem de todo o mundo para tentar localizar o alienígena. 

Após infinitos minutos, as agências de inteligência conseguiram localizar o ET: ele caminhava em uma rodovia ao sul de Curitiba, Brasil, em direção a uma pequena cidade: Fazenda Rio Grande. 

Neste momento, o trânsito local estava parado. Todos haviam abandonado os carros, horrorizados pela aparição daquele ser. Depois de caminhar alguns metros, o alien finalmente chegou à entrada da cidade, delimitada pelo Rio Iguaçu, marco da geografia e da poluição locais. De repente, soltou um ganido que ecoou por todo o vale, por quilômetros. 

Em seguida, uma nave gigante começou a descer da atmosfera, pairando sobre a cidade. Neste instante, as pessoas começaram a chorar, abraçar-se, e algumas até faziam suas necessidades na rua, atônitas. Eu observava tudo de perto. Via o desespero delas e sentia que, pela primeira vez na vida, a humanidade se unia em uma única causa. Contudo, já era tarde demais para pensar em tamanha união.

Minha família estava reunida no portão de casa, olhando para o céu. Meu pai tentava acalmar mamãe, que, por sua vez, estava mais preocupada em o feijão não queimar na panela de pressão do que com a própria invasão alienígena. Meu irmão mais novo tinha acabado de instalar Pokémon Go no celular. Ele estava procurando um Yoshi, mas não quis desanimá-lo dizendo que ele nunca iria conseguir. Minha irmã mais velha lamentava, visto que tinha comprado um ingresso para o show do Jorge e Mateus, que aconteceria na semana seguinte. 

De certa forma, eu não estava triste, desesperado ou arrependido de algo. Acreditava que minha vida, até então, fora bem aproveitada. Afinal, eu havia zerado inúmeros videogames, tinha um emprego honesto na padaria do Seu Manoel e procurava ser um bom filho. No entanto, lá no fundo, batia um certo arrependimento: o de não ter conquistado mais, de não ter estado presente para os amigos e família, de não ter dado o meu melhor e apenas deixado a vida me levar.

Enquanto lamentava o curso da minha vida, boa parte das pessoas estava na rua, esperando o fim iminente. Nesse momento, ouvi um barulho de metal raspando no asfalto e uma confusão na multidão. Notei que um homem caucasiano de meia-idade, vestido com uma capa negra, chapéu de cowboy, botina de couro, e carregando um carrinho de lixo com objetos que não consegui identificar, vinha em minha direção. Subitamente, ele agarrou meu braço e começou a me arrastar:

— Bora, garoto. A gente tem algo a fazer — disse o homem, puxando meu braço com força. 

— O quê? Eu nem te conheço! Me solta! — gritei, tentando me desvencilhar do sujeito, o pânico subindo pela garganta. 

— O que aconteceu na sua infância não era sonho, piá. Era a mais pura realidade — ele respondeu, sem diminuir o passo. 

— Como assim?! 

— Naquele dia, há quinze anos, a destruição da Terra começou. 

— O que você quer dizer com isso?! — perguntei, sentindo meu estômago revirar. 

— Você é o culpado por essa invasão aqui na Terra. Mas agora não temos tempo para ficar batendo papo furado. Apenas me siga. O que faremos agora vai determinar o futuro da humanidade! 

— E o que a gente vai fazer?! 

— Salvar o mundo! — ele concluiu, olhando fixamente para a nave que pairava.

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